13.7.10

Aprender procedimentos ou aprender a ver?

Na sequência do último artigo que escrevi e num dia em que abrem as candidaturas ao Ensino Superior apetece-me voltar ao tema.
Ontem, a RTP-N perguntava aos telespectadores se o aumento de lugares no ensino superior significava melhor ensino. Que pergunta ridícula, pensei eu.
Que raio tem uma coisa a ver com a outra? Nada!
Existe uma expressão portuguesa que, na minha opinião, deveria ser mais usada:
Olhar com olhos de ver!
Esta expressão diz muito acerca do tipo de ensino com que estamos a preparar os Portugueses. Estamos a ensinar formas de resolver exercícios pré-definidos, ensinamos história (da história, da literatura, da filosofia, da química, da física, da matemática), mas esquece-mo-nos de ensinar a ver, analisar, dar a volta e ver o problema por outro lado, noutra perspectiva.
Só assim poderemos criar coisas novas, resolver os nossos problemas. Num mundo em que toda a gente sabe ler os procedimentos e resolver os exercícios pré-definidos, se só soubermos fazer isso vamos ser mais uma formiga no carreiro, da mesma cor, do mesmo tamanho, trabalhadora como as outras, mas sem nada que a distinga.

Escrevo de fora do sistema de ensino. Sei que existem muito bons professores - eu tive os meus -, mas tenho algumas dúvidas que o sistema esteja preparado para motivar e distinguir esses bons professores.

Curiosamente, um dos bloggers que mais acompanho publicou hoje um artigo acerca deste tema.
É uma boa fonte: ver o artigo do Seth Godin

3.7.10

Nota 20!

Aos 7 anos: então, quantos Muito Bons tiveste?
Aos 12: olá! As notas? Quantos 5 tiveste?
Aos 17: então e as provas específicas? Preparado? Que média precisas para entrar no curso?
E na universidade continua o ritmo de trabalho em busca da nota. O 9,5 na frequência é o mínimo, e entre os que trabalham para a nota máxima e os que bebem uns copos contentando-se com o 9,5 o plano de acção continua a ser baseado em quê? Notas, notas, notas!
Os problemas surgem quando todas estas gerações formadas para a nota, para cumprir planos traçados, para não fugir das regras estabelecidas são sujeitos a problemas que têm de ser resolvidos e com os quais nunca lidaram.
Sem espírito crítico, sem capacidade de busca de soluções, sem desenvoltura para ver os problemas por outra perspectiva acabam por se submeter a decisões, opiniões ou imposições que, no limite, nos levaram à situação em que estamos: uma sociedade deprimida, à espera que alguém de fora nos mostre o caminho, nos dê as lições de que temos saudade e que nos recordam os bons momentos académicos, em que mais jovens apenas tínhamos de seguir o que nos livros era escrito ou mecanizar exercícios à exaustão, raramente percebendo para que serviam.
O pensamento criativo, a busca de soluções alternativas, a coragem de as testar, de as aplicar é o único segredo para o sucesso individual ou de uma sociedade que, como a nossa continua atascada no lodo depressor da falta de liderança, que dura há já vários séculos.

22.6.10

os portugueses não passam cartão à ciência

De acordo com um estudo do Euro Barómetro (ver notícia do Público Online) 35% dos portugueses dizem não se interessar de todo por descobertas científicas e progresso tecnológico.
Sendo este o 4.º valor mais elevado entre os 27 países da União Europeia. Os portugueses ficam atrás apenas da Bulgária, Roménia e Lituânia.
Pois é meus senhores, se enquanto sociedades que se desenvolveram, economias que cresceram tornando-se o destino de tantos emigrantes portugueses, dão importância ao ensino da ciência, ao seu conhecimento, a sociedade portuguesa ainda fechada, parca de espírito crítico, olha para a ciência como uma religião de totós, que usam óculos graduados, calçam uma meia de cada cor e andam com o cabelo em pé.
Se pelos inícios do Séc. XX em Portugal, tal como nesses países onde procuramos asilo económico, se discutisse ciência nos cabeleireiros, nas barbearias e nos cafés, Portugal era hoje muito provavelmente um país na linha da frente do conhecimento e desenvolvimento científico.
Tanto quanto sei, temos 3 jornais desportivos diários. Se houvesse um jornal científico diário, de distribuição gratuita seria bem provável que nomes como João Maguejo, Elvira Fortunato, Carlos Fiolhais ou Nuno Crato fossem tão conhecidos como são os jogadores da selecção nacional.
E com esse jornal, nem imaginam a quantidade de golos que marcaríamos!

21.6.10

uma ideia para o país

É óbvio!
Vamos lá ver então o que é assim tão óbvio.
Em Portugal há uma geração de pessoas de grande valor, que assumiu grandes responsabilidades e conquistou grandes triunfos democráticos. São baby boomers que estarão com idades entre os quase 60 e os 75 anos.
Esta geração teve uma infância difícil, com sacrifícios e essencialmente falta de liberdades. Apesar de todas as dificuldades alguns tiveram a oportunidade, coragem, capacidade para conquistar o acesso àquilo que era um recurso muito reservado: formação. Não de carácter, formação académica.
Como já disse, muito fizeram, e por tudo o que fizeram recebem uma pensão de reforma da segurança social. Aliás, justiça lhes seja feita, foram eles os grandes responsáveis pelo enchimento dos cofres da segurança social nas décadas de 70, 80, 90.
Até aqui tudo parece funcionar de forma perfeita.
O problema parece-me surgir quando vejo tantos, mas tantos mesmo, cargos directivos de empresas, instituições ou organizações públicas ou privadas geridas ou dependentes de dinheiros públicos, ocupados por membros desta geração de baby boomers.
Ainda na universidade escrevi um trabalho acerca da construção do futuro. Defendo que para construir o futuro devemos contar com um conhecimento profundo do passado, da história.
Assim, todo o conhecimento e experiência desta geração de baby boomers são cruciais para que o nosso país se desenvolva, cresça e progrida de forma a gerar uma sociedade mais justa e equilibrada.
Mas, pergunto eu: toda esta geração não tem um compromisso social de transmitir esse conhecimento, essa experiência de forma voluntária?
Porque razão existem tantos e tantos directores com vencimentos bastante acima da média, que acumulam com pensões de reforma?
Serei estúpido, idiota ou naïve por achar que estes cargos deveriam ser ocupados por uma geração mais jovem (com 30, 40 ou 50 anos)?
Parece-me que em todas estas instituições ou organizações deveriam ser constituídos conselhos de sábios ou anciãos (não estou de todo a ser cínico) para a transmissão de toda essa experiência e conhecimento, para o conselho avisado às decisões dos mais novos.
Na sociedade humana as coisas funcionaram sempre assim. Porque não agora?
Estes conselheiros, que já recebem pensões de reforma, não têm de receber um vencimento pelo seu trabalho.
Devem devolver o conhecimento e experiência adquirida às gerações mais novas, de forma altruísta e por forma a deixarem à sociedade aquilo que de mais valor conseguiram: o conhecimento.

20.6.10

histórias de livros

Por estes dias muito se tem falado de Saramago. Entre tantas conversas e discussões, sempre mais em torno da figura, da distribuição de cinzas e da presença ou não desta ou daquela personalidade nas cerimónias fúnebres, do que da sua escrita, a minha mãe relembrou-me uma, já velha, história do primeiro Saramago que entrou cá em casa.
Lembro-me agora de uma Feira do Livro na Escola Secundária de Esmoriz, estaria eu com 14 anos, quando comprei o meu primeiro Saramago. Decisão de compra partilhada entre a minha vontade de oferecer um bom livro ao meu pai e o conselho do meu professor de Biologia, Rui Mateus (para alguns conhecido como Jo, o Índio, de quem guardo boas memórias e a minha única expulsão de uma aula. Inocente, inocente!).
Fui procurar o livro.
Lá estava ele. O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ali mesmo por baixo da Bíblia Sagrada.
Que outro lugar poderia ter o livro que falta àquele?

10.6.10

à espera do comboio na paragem do autocarro

às cegas andamos, procurando caras, corações, mãos que, por força de vontades desconhecidas, desenham mapas iguais de navegações tocadas por ventos tempestuosos que nos levam a sair deste Porto.
navegações para fora deste Porto em que retemos o olhar cego, com medo do levante, dos novos ventos soprados de cabos nunca dobrados.
navegantes solitários nos tornámos, com o coração apertado, com a saudade da partilha de visões, de imagens, de estórias e histórias.
barcos sós num oceano de temperamentos imprevistos, onde navegamos procurando pedras no céu. procurando e voltando a encontrar aquela outra pedra rubra, aquela a que um dia, depois de muitas brincadeiras de criança, decidimos viajar para sempre.
e nesta paragem em que cegos permanecemos, o comboio não chega.

9.6.10

istambul

não resisti a decorar este texto com uma fotografia panorâmica de Istambul (sim, fui eu que tirei e o Photoshop compôs).
bem e agora o texto.

Taksim? Taksim? Ten lires, same price, same price! O taxista enche o carro com 4 desconhecidos a caminho da praça Taksim, bem no centro de Istambul. Piscas, não existem! Antes uma buzinadela para avisar que vem gente a trás. Pela esquerda, pela direita o taxi carregado de turcos e um português rola numa via de acesso moderna entre um mar de carros, não chocolateiras, carros a sério. Curva à direita, curva à esquerda, turcos p'ra cima do português, português p'ra cima dos turcos. Será esta a noção de melting pot? Não!
Passa já das 24 horas e finalmente chegamos à Taksim. Mas o que é isto? É 5.ª feira à noite, os istambuleses não dormem?  As ruas estão apinhadas de famílias, de grupos de jovens, de luzes, de carros, de vida.
Caminhei estarrecido Istiklal Caddesi abaixo. Uma pequena exposição de fotografias atraiu a minha atenção. Mas... esta foto faz-me lembrar uma cidade que muito bem conheço! Não! É mesmo Istambul.
Mais abaixo reconheço o aroma doce, mas de Outono, de castanhas assadas. E não é que são mesmo castanhas assadas ou kestanes como dizem os turcos.
Numa travessa por entre mesas de gente a fumar narguile, por entre montras de restaurantes que preparam comidas de aromas desconhecidos ouço as atoardas musicais de bares que procuram a atenção de quem passa. Finalmente o Hotel. Nada de luxos que os orçamentos anda pelas ruas da amargura.

Istambul é muito mais que que os circuitos percorridos entre espanhóis que berram, japoneses que fotografam, americanos que parecem mamutes humanos sempre à frente de toda a gente. Istambul é muito mais que a inacreditável e indescritível igreja ou mesquita da Santa Sabedoria, é mais que a Mesquita Azul, o Palácio de Topkapi ou o Grande Bazar. É mais, mas ficamos sempre a conhecer de menos.
Istambul é um verdadeiro melting pot de culturas, de tradições, de material genético misturado ao longo de 30 séculos que a transformou em lugar único, vivo, incrivelmente europeu e ao mesmo tempo árabe, ortodoxo, grego, curdo, arménio ou até português, como a palavra que usam para laranja: portakal! What means portakal? À pergunta obtenho como resposta: um. Torci o nariz e ao fim de mais três ou quatro tentativas de diálogo percebi que os guias de viagem não sabem o que dizem quando dizem que os istambuleses de uma forma geral falam Inglês. No hotel, nos museus, em alguns cafés e numa ou outra loja entende-mo-nos uns aos outros, mas fiquemos por aí. Confirmei mais tarde a minha suspeita de que portakal significa mesmo laranja e ao mesmo tempo Portugal. Estranho não é? Como estranho é ver na montra da Nike o manequim com o equipamento da selecção portuguesa e aos pés a bola "A equipa de todos nós".
De todos nós, quem? É que só naquela cidade vivem 14.000.000 de pessoas. De pessoas como o Volkhan, aquele professor de matemática que encontrei numa pequena manifestação contra o desemprego de professores (pelos vistos são cerca de 30.000 na Turquia). Palavra puxa palavra Ricardo Quaresma, José Mourinho, Cristiano Ronaldo, mas a seguir vieram mesmo as surpresas. Não é que o Volkhan conhece a Mariza e "uma brasileira que se chama Teresa Salgu Eiro". Expliquei que esta Teresa Salgueiro é bem portuguesa, mas caí de rastos quando ele me disse que conhecia uma outra coisa de Portugal: o "malau malau". O quê? O Malhão Malhão! Sim, por breves segundos tentei dançar e cantar o que me recordava de ver nalgumas romarias por onde passei. Nada mais que uma caricatura mal feita dos extraordinários ranchos folclóricos do nosso Minho.

Existe em Istambul uma forte presença da cultura intelectual latina. Seja pela música que se ouve nos modernos cafés e restaurantes, seja até pelo eléctrico da Istiklal Caddesi que, não sei porque razão, me faz lembrar Buenos Aires. Não sei se por fotografias, se por leituras ou se pelo simples desejo de conhecer o Sul.
A Capital Europeia da Cultura 2010 é uma cidade moderna, modernidade reflectida no surpreendente Istambul Modern, que mereceria um edifício da mão de Siza Vieira, ou nas diferentes galerias com mostras de trabalhos de artistas turcos, ou de renomeados artistas como Botero, presente no Museu Pera.

Istambul é isto, mas é tudo o resto que fica por descrever e tudo o muito que ficou por conhecer, são Igrejas com 15 séculos e Mesquitas com 5, são arranha-céus com 40 andares e arménios que coleccionam o lixo do chão, são muçulmanos que não deixam qualquer espaço livre em mesquitas às 4h30 da manhã, são turcas lindas que passeiam sozinhas pela rua, são muçulmanas tão lindas que passeiam de braço dado com os pais, são turcos de 70 anos que nos apertam a mão quase até nos vergar e explicam que tanto vigor se deve a muito iogurte e rakia, são mansões nas margens do Bósforo e quase barracas nalgumas zonas da cidade.

É uma cidade que não deve ficar por visitar.

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