marrar v. intr. dar marrada; bater com a marra; turrar; esbarrar com alguém; encontrar; ficar parado e atento (o cão) ao pressentir a caça; teimar; toldar-se (o vinho) [acad.] decorar (De marra+-ar).
Esta é a definição de marrar que nos é apresentada pela 8.ª edição revista e actualizada do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
Feitas as devidas introduções vou-me dedicar um pouco ao Seth Godin e aos seus textos acerca do esquisito.
A tecnologia tem permitido à sociedade evoluir no sentido de um abatimento naquela que seria considerada uma distribuição normal de comportamentos. Desde que Henry Ford, no início do Séc. XX, desenvolveu a capacidade de produção em massa a baixo preço, toda a sociedade 'ocidental' evoluiu no sentido de promover a massa, a normalidade, o padrão. Todos pensávamos de forma idêntica, líamos os mesmos livros, vestíamos a mesma moda, víamos e ouvíamos os mesmos programas de televisão, as mesmas rádios, os mesmos discos. Quando aparecia alguém fora desta 'normalidade' era, obviamente, um anormal, ou um artista, na melhor das hipóteses.
Mas depois apareceu a TV por cabo, a Internet e ganhámos tempo, e tivemos liberdade para fazer o que quisemos, pensar como quisemos, vestir o que nos apetecia. A tecnologia deu-nos liberdade para sermos mais nós. (Sim, não foram os militares ou os políticos que nos deram a liberdade, foram mesmo os cientistas e os empreendedores).
E agora, o que é que isto tem a ver com marrar? (E que palavra tão feia!)
Agora que saímos da caixa da normalidade, temos opinião e queremos fazer alguma coisa para mudar o que consideramos estar mal, acabamos, quase sempre, por dar com a cabeça (marrar) num sistema construído para uma sociedade normal.
O que fazer então?
Diria que existem três opções:
1. Marrar até partir a lei ou a cabeça;
2. Fazer uma reunião de marrões, marrar uns nos outros e virem para a rua, uns e outros, mostrar os seus troféus;
3. Deixar de ser marrões, usar o que está por trás da testa, dar a mão à lei e ajudá-la a evoluir no sentido de uma sociedade diferente, uma sociedade que saiu da caixa.
Tomei a liberdade de legendar um gráfico da distribuição normal com base num original do livro do Seth Godin e adaptá-lo ao texto que escrevi. Diria que quanto mais afastados da caixa, mais marrões nos tornamos, os que se afastam para a esquerda e os que se afastam para a direita. E considerando que a tendência é haver um acentuado abatimento do centro atirando 'ondas' para as extremidades vejo com grande preocupação a vontade de tanto 'marrão' tomar conta disto tudo.
Perceberam!?
18.4.12
Do nome das terras
Já conto alguns anitos e muitos quilómetros percorridos neste país que me permitiram conhecer alguns nomes de terras um pouco estranhos. Alguns dos mais estranhos serão: o Colo do Pito, a Campa do Preto, a Catraia do Buraco, a Venda da Gaita, o Vale da Rata, o Vale de Mortos, a Vila Nova do Coito, o Rego do Azar ou o Cu de Judas, na ilha de S. Miguel. Mas dei hoje com a notícia de uma localidade austríaca que tem o belo nome de Fucking e cujos residentes vão referendar a mudança ou não do nome da terra.
Por mim era não, de caras!
Por mim era não, de caras!
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sociedade
15.4.12
Os meus ficheiros perdidos - parte I
Enquanto penso se vou apanhar uma bela rajada de vento pela praia decidi remexer nalguns ficheiros perdidos e re-descobri os macro-universos paralelos do John Drucker. Há outros ficheiros perdidos? Sim, há, mas tenho de os por a arejar.
2023, Berkeley,
CA
John Drucker,
astro-físico americano, recebia o Prémio Nobel naquele ano. Numa das suas
cidades, os amigos esperavam-no para uma tertúlia de disparates, na noite que
antecedia o vôo para Estocolmo. Avenida Sta. Bárbara, bar do Gavin, “half
pint”. Os 15 anos de eurekas erradas estavam bem longe dali, mas um gole a mais
sacou a rolhas a brincadeira de criança que garantia a sanidade mental do
cientista. Na primeira pessoa e sem verbo, John avançou:
- Na viagem com
o fotógrafo Philip Night, uma esplanada do norte de Portugal, menina da lua,
jogo das nove pedras de cores diferentes e baças... Sandy, o amigo, interrompeu
a lufada de anti-depressivo:
- Não! Quero os
Macro-Universos Paralelos de Drucker!
Estava na
altura. John carregou no “On” e iluminou as mentes presentes. E a sua e a de
Sandy. Enquanto arriscava que o Sistema Solar é uma projecção do átomo de flúor
na tabela periódica, o seu coração dançava com a menina de rosto redondo. Do
latim infinito; do grego, gosto por viver. A menina da lua estava destinada a
sorrir. Nariz isósceles, sempre empinado. Rabo de cavalo, claro, com alguns
cabelos insubordinados. Neta do salsicheiro do mercado mais falado do Porto. A
banca mais visitada, pela linguiça fresca. Quem disse que é o molho que faz a
francesinha inesquecível? A menina passou a meninice a subir e a descer
escadas. Pintava, bordava, escrevia, até calhamaços lia. Tinha teorias sobre
como caminhar: – Endireita as costas e peito de rôla, mas respira à vontade.
Também tropeçava, a menina. Ficou perita nos tropeções em pedras baças. Só o
fez uma vez, com imperfeição, da maneira que dá uma estória. Distraída,
enquanto Magueijo a admirava atento, com os pés não assentes na Terra. Não
gostava de viajar, a menina: – Para quê?, perguntava quando lhe perguntavam os
inocentes. Só João viu na cara
redonda outro planeta. Com luz tão própria que era dos outros. Afinal tinha
viajado uma vez, com cabelos brancos. Tinha estado no bar do Gavin, em 2023.
Sandy assistia ao regresso do amigo. Só ele sabia da história de Magueijo. Do
nascimento de John Drucker. A mudança de nome pela cidadania americana.
Pela ciência.
O Filipe Soares é um amigo, que está longe, e com quem partilhei estórias e contos mínimos.
A publicação dalgumas das estórias que fui escrevendo foi motivada, mesmo sem que ela o saiba, pela Joana Cabral deste blog.
13.4.12
Então, mas isto não é terrorismo? :(
Acabei de ver um vídeo que, sinceramente não sou capaz de qualificar. Talvez o guarde entre o terrorismo e a comédia de gosto duvidoso. De qualquer das formas considero inqualificável a atitude de alguém se esconder atrás de uma máscara e distribuir ameaças contra pessoas de quem, obviamente, podemos discordar e até considerar idiotas, burros, estúpidos, seja lá o que for. As ideias, os projectos, o nosso trabalho tem de ser defendido cara a cara e no lugar próprio. A liberdade não é um lugar onde todos fazemos ou dizemos o que queremos. A liberdade é um lugar onde todos podemos crescer respeitando o crescimento daqueles que estão à nossa volta, sendo que 'à nossa volta' estão todos e 'todos' significa tudo.
Se há alguém que não respeita a vontade de crescer de uma comunidade é necessário mostrar-lhe argumentos para que possa mudar de opinião. Se não muda, não é porque é burro, casmurro ou estúpido, é porque não estamos a saber comunicar o que queremos fazer.
Sinceramente, como defensor da importância da comunidade no desenvolvimento de uma sociedade mais equilibrada, gostava muito que o grupo de pessoas que está a intervir na Fontinha repudiasse veementemente este vídeo. É fundamental! Ou então compram uma guerrinha que não os vai levar a lugar nenhum.
Quanto ao vídeo, recuso-me a publicá-lo aqui, mas podem vê-lo por aí.
Se há alguém que não respeita a vontade de crescer de uma comunidade é necessário mostrar-lhe argumentos para que possa mudar de opinião. Se não muda, não é porque é burro, casmurro ou estúpido, é porque não estamos a saber comunicar o que queremos fazer.
Sinceramente, como defensor da importância da comunidade no desenvolvimento de uma sociedade mais equilibrada, gostava muito que o grupo de pessoas que está a intervir na Fontinha repudiasse veementemente este vídeo. É fundamental! Ou então compram uma guerrinha que não os vai levar a lugar nenhum.
Quanto ao vídeo, recuso-me a publicá-lo aqui, mas podem vê-lo por aí.
24.2.12
A lição do Zeca
Passaram ontem 25 anos sobre a morte do Zeca Afonso. O meu pai era um enorme apreciador do Zeca e lembro-me que nesse dia havia uma aura de profunda tristeza em nossa casa, como se alguém que fosse nosso nos tivesse desaparecido. Nesse dia à noite lembro-me da RTP ter passado o último concerto do Zeca no Coliseu dos Recreios.
Em minha casa Zeca é Fado de Coimbra e é alguém que fez da sua arte arma de luta por aquilo em que acreditava. E esta é a sua grande lição: lutar por aquilo em que se acredita com as armas que se tem.
Obrigado Zeca.
Em minha casa Zeca é Fado de Coimbra e é alguém que fez da sua arte arma de luta por aquilo em que acreditava. E esta é a sua grande lição: lutar por aquilo em que se acredita com as armas que se tem.
Obrigado Zeca.
20.2.12
Loportunity and Linsanity
Para quem não segue a Liga Profissional de Basquetebol dos EUA (NBA), assim como eu, há uma notícia que pode estar a escapar-nos. Na equipa dos New York Knicks surgiu recentemente um jovem jogador de origem taiwanesa (pronto é de Taiwan) que em nove jogos já fez história.
Jeremy Lin é licenciado em economia por Harvard e ninguém dava grande coisa pelo rapaz até que o treinador da equipa nova-iorquina se viu privado, por lesão, dos seus dois principais bases e teve mesmo de lançar Lin em campo.
A oportunidade virou Linsanidade, Lin destacou-se, mostrou o que realmente vale, pontua, faz assistências, os Knicks começaram a ganhar jogos, começaram a subir na tabela e ontem venceram os campeões Dallas Mavericks, coisa que não acontecia há seis anos.
As soluções podem estar mesmo ao nosso lado, e nós podemos nunca olhar para elas como uma hipótese até que chega o momento em que já não há alternativa e as coisas acontecem. Foi assim com Lin e ele está a aproveitar bem a oportunidade.
Go Lin!
A oportunidade virou Linsanidade, Lin destacou-se, mostrou o que realmente vale, pontua, faz assistências, os Knicks começaram a ganhar jogos, começaram a subir na tabela e ontem venceram os campeões Dallas Mavericks, coisa que não acontecia há seis anos.
As soluções podem estar mesmo ao nosso lado, e nós podemos nunca olhar para elas como uma hipótese até que chega o momento em que já não há alternativa e as coisas acontecem. Foi assim com Lin e ele está a aproveitar bem a oportunidade.
Go Lin!
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empreendedorismo,
sociedade
16.2.12
O registo de ponto
O que eu vou escrever é tão bonito, mas "a realidade não é bem assim" diriam alguns dos meus amigos e quase todos os portugueses.
Há pouquíssimo tempo fiz uma visita a um cliente e reparei que o bom homem, na sua ânsia de modernizar a empresa, tinha comprado um sistema de registo de ponto por impressão digital.
Uau! Exclamei eu.
Agora já ninguém foge da linha!
Da linha literalmente, porque os registos de ponto, os relógios, os dias de trabalho, os fins-de-semana, os feriados e as férias são invenções de uma economia baseada na linha de produção, em que uma pessoa não é mais que uma roda da engrenagem. Se saltar fora ou ficar lenta tem de ser substituída ou então a linha pára.
O ser humano foi, mas tem de deixar de ser comparado a uma peça de engrenagem.
O que adianta ser uma peça de engrenagem bem polida e oleada cheia de vontade de contribuir quando depende da velocidade que lhe é transmitida?
Sim, o sistema de ensino é uma linha de produção. E vai acabar como o conhecemos.
Sim, o sistema de saúde é uma linha de produção. E vai acabar como o conhecemos.
Sim, a justiça é uma linha de produção. E vai acabar como a conhecemos.
Sim, existem muitas empresas e negócios que já não são organizados como uma linha de produção. E querem saber uma coisa? São esses que estão a crescer.
Estranho? Nada disso. Esta realidade que agora termina existe há muito pouco tempo (em Portugal, só depois da I Grande Guerra), o tempo necessário para que alguns de nós pudessem enriquecer e ganhar poder de forma desmesurada.
"Pois, mas a realidade não é bem assim."
E tu, tens coragem para mudar a tua realidade?
Há pouquíssimo tempo fiz uma visita a um cliente e reparei que o bom homem, na sua ânsia de modernizar a empresa, tinha comprado um sistema de registo de ponto por impressão digital.
Uau! Exclamei eu.
Agora já ninguém foge da linha!
Da linha literalmente, porque os registos de ponto, os relógios, os dias de trabalho, os fins-de-semana, os feriados e as férias são invenções de uma economia baseada na linha de produção, em que uma pessoa não é mais que uma roda da engrenagem. Se saltar fora ou ficar lenta tem de ser substituída ou então a linha pára.
O ser humano foi, mas tem de deixar de ser comparado a uma peça de engrenagem.
O que adianta ser uma peça de engrenagem bem polida e oleada cheia de vontade de contribuir quando depende da velocidade que lhe é transmitida?
Sim, o sistema de ensino é uma linha de produção. E vai acabar como o conhecemos.
Sim, o sistema de saúde é uma linha de produção. E vai acabar como o conhecemos.
Sim, a justiça é uma linha de produção. E vai acabar como a conhecemos.
Sim, existem muitas empresas e negócios que já não são organizados como uma linha de produção. E querem saber uma coisa? São esses que estão a crescer.
Estranho? Nada disso. Esta realidade que agora termina existe há muito pouco tempo (em Portugal, só depois da I Grande Guerra), o tempo necessário para que alguns de nós pudessem enriquecer e ganhar poder de forma desmesurada.
"Pois, mas a realidade não é bem assim."
E tu, tens coragem para mudar a tua realidade?
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